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Será que se fôssemos politeístas seríamos mais tolerantes?

Olá olá

Sabe que trabalhar com a tradição oral, com contos e histórias acaba nos levando inevitavelmente para o caminho dos mitos. Não tem jeito, uma hora damos uma pisadinha lá por aquelas bandas. 

E gente, não conheço nenhuma pessoa que não tenha ficado ou encantada ou no mínimo curiosa ao se deparar com essas histórias. O mito, assim como o conto de fadas, não é para a nossa consciência diurna. O uso da literalidade é frustrante, como facilmente podemos perceber quando ouvimos opiniões de alguém que não é especialista em mitos ou contos de fadas, de alguém que não trabalha com esse conteúdo e mesmo assim busca classificar os contos tomando o mundo concreto como ponto de partida.

Se eu fosse da nova geração eu diria que além de frustrante é “cringe”, mas não sou, então sigo com emoji mesmo 😬.

Mas, em época de posicionamento, acho bacana compartilhar um desses posicionamentos com vocês. Então lá vai: “Eu acredito que se fôssemos politeístas seríamos mais felizes e menos doentes”.

Anna!!?? Você não acredita em Deus? 

Não! Veja, não é isso que estou dizendo. As vezes dou ouvidos para alguns pensamentos que rondam minha cabeça e penso que antes de chegarmos lá, Naquele que tudo criou, poderíamos considerar “deuses menores”, digamos assim. Gustavo Barcellos, no seu livro Mitologias arquetípicas: Figurações divinas e configurações humanas, diz que:

“O que o politeísmo nos ensina, antes de qualquer coisa, é a tolerância, porque nos coloca diante da experiência da diversidade… O monoteísmo não nos ensina a nos relacionar, porque não tem com quem se relacionar.“

Aliás, já leu esse livro? Se não leu corre ler porque ele é um dos livros mais gostosos sobre mitos que já li. Sim, gostoso, do tipo bombom fino que você esconde das crianças para degustar aos pouquinhos. 

No livro, ele segue dizendo algo fundamental…

“Então, tudo aquilo que não conseguimos, não podemos, ou que estamos impedidos de imaginar, não conhecemos. Imaginar, desse ponto de vista, é conhecer. Só quando você imagina uma coisa é que você pode conhecê-la mais profundamente. E se perdemos a capacidade de imaginar os deuses, perdemos com isso também a proteção que esses poderes, quando imaginados, podem nos oferecer – a proteção contra a loucura, o desvario, a deriva.” 

Já pensou o que esses deuses representam? Do que eles estão falando? O que a criação de deuses fala sobre nós mesmos? Ou, o que será que os contos da fadas estão querendo nos dizer muito além da literalidade?

E a questão da perda da capacidade de imaginar é séria. Muito séria. Patológica. É só olha ao redor… consegue perceber?

Das várias citações que ainda poderei tirar do livro, lhes deixo com essa para reflexão:  

“Os gregos […] não tinham psicologia profunda e psicopatologia tal como nós temos. Eles tinham mitos. E nós não temos mitos; ao invés, temos psicologia profunda e psicopatologia. Portanto, como já repeti muitas vezes, a psicologia mostra os mitos numa roupagem moderna, e os mitos mostram nossa psicologia profunda numa roupagem antiga.”

Precisamos urgentemente voltar a abrir espaços e valorizar práticas que estimulem nossa imaginação. Ela é muito mais importante e vital para nosso funcionamento humano em sociedade do que podemos (desculpe o trocadilho 😁) imaginar.

Abraços,

Anna Rossetto

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