Níveis de Contoterapia
- 23 de mar. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 18 de out. de 2025
O que é Contoterapia?
Antes de explorarmos os níveis de contoterapia, precisamos falar que a Contoterapia® é uma prática terapêutica e simbólica que se realiza por meio das histórias. Mais do que utilizar contos como ferramentas, ela acolhe o poder vivo das narrativas para favorecer processos de autoconhecimento, integração emocional e ampliação da consciência. É uma arte de cuidar através da palavra, onde o conto se torna espelho, caminho e gesto de reconexão com o que há de mais humano em nós.
Poderíamos falar de benefícios, resultados, metodologias, aplicações e áreas de influência e, sem dúvida, tudo isso seria fascinante. Mas quando falo em níveis de Contoterapia®, quero chamar a atenção para as sutilezas da sua prática. Afinal, trabalhar com histórias — que são infinitas — em processos humanos — que também o são — exige presença, escuta e intencionalidade, para que o encontro com o conto não se torne apenas mais uma técnica, mas uma experiência viva de transformação.
Para que o raciocínio fique mais claro, vale retomarmos alguns conceitos e distinções. O que chamamos de “conto” é, em geral, uma narrativa breve, escrita em prosa, cuja origem está na tradição oral de transmitir sabedoria por meio das histórias. Quando transcritas, essas narrativas — geralmente centradas em uma única trama — preservam a força simbólica da oralidade e nos convidam a atravessar, em poucas linhas, uma jornada inteira de sentido.
Diferença da Biblioterapia
Diferente da biblioterapia, que se propõe como um método de desenvolvimento pessoal e resolução de problemas por meio da leitura de livros (segundo Phersson e McMillen, 2006, conforme citado no site A Biblioterapeuta), a Contoterapia® tem como foco a experiência viva da narrativa. Não se trata de ler uma história, mas de contar e ser tocado pela história contada. O encontro não é mediado pela leitura silenciosa, e sim pela oralidade, pela presença e pela escuta que emergem no ato de narrar. É nesse espaço que surgem as sutilezas e os diferentes níveis de aplicação da Contoterapia®.
Não existe contoterapeuta que não seja, também, contador de histórias. Se os contos nasceram da tradição oral, é natural que o contoterapeuta honre essa origem, cultivando o ofício de narrar. O domínio da arte de contar histórias — com ritmo, corpo, voz e intenção — é a base da Contoterapia®, pois é através dele que o conto volta a respirar e ganha vida no encontro com o outro.
Mas então, todo contador de histórias é um contoterapeuta?
De certo modo, carrega em si a semente do contoterapeuta. Desde o início dos tempos, os contadores de histórias têm sido mestres, artistas, guardiões de saberes e curadores simbólicos da humanidade. A diferença é que o contoterapeuta reconhece conscientemente o potencial terapêutico das narrativas e o integra a um campo de cuidado. Ao contar histórias, ele se volta não apenas à arte, mas também à escuta profunda, utilizando o conto como um gesto de reintegração simbólica, uma forma de abordar as complexidades da experiência humana com respeito, delicadeza e verdade.
A língua universal
E qual é a língua universal? Qual é a linguagem que realmente gera união entre os seres humanos?
A linguagem simbólica.
Independentemente da língua que falamos, a linguagem simbólica é a única verdadeiramente compreensível a todos. É ela que nos une, porque fala diretamente à experiência humana, ao que sentimos, sonhamos e reconhecemos sem precisar traduzir.
E onde encontramos símbolos e alegorias em abundância? Onde as imagens se entrelaçam com o sentido e revelam camadas do invisível?
Um dos lugares — embora não o único — é nos contos.
O contoterapeuta atua nesse reino intermediário, onde o simbólico e o concreto se encontram. É ali que ele tece seu ofício, dando forma ao que ainda não tem nome e preparando o caminho para que algo se manifeste no mundo real. Esse trabalho, embora aconteça no campo simbólico, repercute diretamente na vida cotidiana, pois transforma a forma como percebemos, sentimos e agimos.
Por isso, muitas outras práticas de cuidado e desenvolvimento humano podem se beneficiar do encontro com os contos. A Contoterapia® é, nesse sentido, uma abordagem complementar, que dialoga com diferentes campos terapêuticos e educativos. Quando o contador de histórias se une ao terapeuta, e ambos reconhecem o poder vivo das narrativas, nasce o contoterapeuta: alguém que escuta e conta histórias como quem cuida, reconcilia e reintegra.
Os níveis de contoterapia
E afinal, o que são os níveis da Contoterapia®?
A profundidade da Contoterapia® não está no uso de técnicas ou recursos narrativos, mas na disposição interna de mergulhar no próprio mundo simbólico para, a partir dele, servir histórias. Essa permissão para o mergulho nasce do caminho vivido no ofício do contador de histórias — da prática constante, da entrega à arte e da escuta sensível do que se revela entre palavra e silêncio. Contar histórias, nesse contexto, não é sobre falar palavras, mas compartilhar imagens vivas. Qualquer pessoa pode falar, mas nem todos conseguem criar imagens que tocam o outro.
É possível, sim, “contar palavras” ou até “contar imagens”, mas, se o movimento permanecer apenas mental, o processo perde sua potência transformadora. A verdadeira beleza, e eficácia, de trabalhar com contos como caminho de cuidado humano está na conexão que acontece além das palavras, no campo da emoção e da imaginação. Afinal, apenas cerca de 20% da nossa comunicação se dá por meio de dados ou linguagem verbal; os outros 80% estão ligados à intenção, ao tom de voz, às microexpressões, à postura e à presença. É nesse campo invisível que o conto age.
Os níveis da Contoterapia® correspondem, portanto, aos níveis de entrega e presença que o contoterapeuta se permite viver ao narrar e escutar uma história. Graças aos nossos neurônios-espelho, o ouvinte percebe, sente e reflete exatamente o grau de entrega do contador. Não há como disfarçar: é uma comunicação que acontece além do consciente.
Um estudo realizado na Universidade de Princeton (Stephens et al., 2010) demonstrou que, ao contar e ouvir uma história, os padrões de atividade cerebral entre narrador e ouvinte se sincronizam, e quanto maior a compreensão e a conexão, mais próximos se tornam esses padrões. Isso mostra, cientificamente, o que a Contoterapia® vivencia na prática: quando o contoterapeuta mergulha de verdade na história, ele convida o outro a mergulhar também.
Quanto mais o contoterapeuta se permite viver a experiência simbólica da narrativa, mais profundamente o ouvinte é tocado e mais transformador se torna o processo.

Stephens, G.J. et al. Speaker-listener neural coupling underlies successful communication. PNAS, 2010, Disponível em: https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.1008662107




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