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O que acontece no cérebro quando escutamos uma história | Contoterapia

  • há 3 dias
  • 6 min de leitura
Dois perfis humanos de frente, com cérebros dourados brilhando e ondas de luz ligando as testas, em fundo branco.

Escutar parece simples. Você para, presta atenção, recebe o que vem.


Três linhas de pesquisa em neurociência apontam em outra direção. Nenhuma delas foi conduzida com o objetivo de estudar narrativa. Mas o que cada uma encontrou, no seu próprio campo, oferece perguntas relevantes sobre o cérebro quando escutamos uma história.


O cérebro que descansa não está em repouso


Durante décadas, a neurociência cognitiva concentrou sua atenção no cérebro em ação. Executando tarefas, resolvendo problemas, processando estímulos externos. O que acontecia quando o cérebro parava de fazer tudo isso era tratado como ruído de fundo, algo sem organização relevante.


Em 2001, Marcus Raichle e colaboradores publicaram um estudo que reorganizou esse entendimento. Usando tomografia por emissão de pósitrons, eles mapearam a atividade cerebral durante estados de repouso e durante a execução de tarefas dirigidas. O que encontraram foi contraintuitivo. Certas regiões do cérebro ficavam consistentemente mais ativas no repouso do que durante tarefas externas. Era um padrão organizado e previsível.

Esse padrão ficou conhecido como modo padrão. Anos depois, Buckner, Andrews-Hanna e Schacter (2008) mapearam com mais detalhe o sistema que o sustenta, a Rede de Modo Padrão, e identificaram funções associadas a ele. Memória autobiográfica, projeção de cenários futuros, teoria da mente, autorreferência, cognição social.


Raichle não estava estudando narrativa. A conexão com a escuta de histórias é uma inferência baseada na sobreposição entre as funções identificadas na rede e o que uma narrativa tende a mobilizar em quem escuta. Essa sobreposição é sugestiva, e abre uma pergunta instigante: se o cérebro em repouso opera por meio de memória, projeção e cognição social, o que acontece quando uma história aciona exatamente esses processos?


O corpo que simula o que imagina


A segunda linha de pesquisa parte de uma pergunta diferente. O que acontece no sistema motor quando imaginamos uma ação, sem executá-la?


Em 2001, o neurocientista Marc Jeannerod publicou um artigo que consolidou a teoria da simulação neural. Ele mostrou, a partir de estudos de neuroimagem e estimulação magnética transcraniana, que estados mentais como imaginar um movimento ou observar uma ação realizada por outra pessoa ativam circuitos motores que se sobrepõem parcialmente aos da execução real. A sobreposição é mensurável. Estudos citados no artigo indicam que imaginar um movimento de preensão ativa o córtex motor primário em cerca de 30% da intensidade da execução real. Observar alguém correndo numa esteira aumenta a frequência respiratória do observador proporcionalmente à velocidade do corredor.

Jeannerod chamou esses estados de S-states, estados de simulação encoberta. O sistema motor, nessa leitura, faz parte de uma rede de simulação que opera mesmo na ausência de movimento real.


O escopo do estudo era cognição motora. Jeannerod também não estava pensando em narrativa quando fez esse trabalho. O que o estudo oferece é uma base para outra pergunta que permanece em aberto: se o corpo já responde parcialmente à imaginação de uma ação, o que pode acontecer com o corpo que escuta uma história inteira, com personagens, tensões, gestos, emoção?


Dois cérebros, uma história


A terceira linha de pesquisa é a mais diretamente ligada à comunicação verbal. Stephens, Silbert e Hasson (2010) registraram com fMRI a atividade cerebral de uma narradora contando uma história espontânea e, em seguida, a atividade de onze ouvintes escutando a gravação dessa mesma história.


Durante a escuta, os padrões de ativação do cérebro dos ouvintes apresentaram acoplamento com os padrões da narradora em múltiplas regiões, incluindo áreas associadas à linguagem, à teoria da mente e ao processamento social. Para verificar se o fenômeno dependia da compreensão do conteúdo, os pesquisadores repetiram o experimento com uma narradora falando russo para ouvintes que não entendiam a língua. O acoplamento desapareceu quase completamente, sugerindo que o fenômeno está ligado à compreensão, e não apenas ao processamento acústico do som.


Durante a formação em Contoterapia® eu falo com frequencia que nossa contação é corporal, e grande parte dela cai para além das palavras, está no tom de voz, na microexpressão, na postura do corpo, nos gestos intencionais, tudo isso ajuda a construir imaginação facilitando a compreensão. Não é apenas uma questão de lembrar de contar todas as palavras do texto. E esse estudo nos assegura que a compreensão é fundamental.


O achado mais robusto em termos de correlação com comportamento foi a antecipação. Em certas regiões, o cérebro do ouvinte ativava antes do da narradora. E quanto mais extenso esse padrão antecipatório, maior a pontuação do ouvinte numa avaliação de compreensão da história, com correlação de r = 0,75, p < 0,01. Os autores interpretam esses resultados como evidência de que a compreensão bem-sucedida envolve um processo ativo de predição.


O estudo trabalhou com comunicação verbal espontânea gravada, não com interação em tempo real nem com narrativa em contexto terapêutico. Qualquer extensão para esses contextos é inferência.


No entanto, na experiência prática contando histórias em países e audiências que não falam minha língua materna, é incrível perceber que o corpo é um grande trunfo quando o vocabulário entre os envolvidos não está alinhado. Quem conta histórias, não quem lê, sabe que as vezes esquecemos uma palavra, um termo, um trecho do conto. E quando fazemos isso em outra língua, essa hesitação se assentua. Não foi nem uma, nem duas vezes, que me vi recorrendo ao corpo, a mimica, aos gestos, sons e expressões, para contar uma palavra que havia me fugido, e mesmo assim, numa audiência com variadas línguas, todos entenderam. E cá entre nós, inserir o corpo para além das palavras tornou tudo ainda mais empolgante, envolvente e imersivo.


A partir desses e de outros dados, Hasson e colaboradores (2012) propuseram uma hipótese mais ampla. A cognição pode não acontecer exclusivamente dentro de um único cérebro. Ela pode emergir a partir da interação entre dois cérebros acoplados por um sinal compartilhado. Essa é uma proposição teórica, ainda em desenvolvimento no campo.


O que três pesquisas em neurociência revelam sobre o cérebro quando escutamos


Raichle, Jeannerod, Stephens e Hasson trabalharam em campos diferentes, com perguntas diferentes, sem o objetivo comum de estudar narrativa. Lidos em conjunto, os três estudos sugerem que o cérebro quando escutamos uma história pode estar envolvendo simultaneamente o sistema de simulação interna, circuitos motores parcialmente ativados e padrões de acoplamento com o cérebro de quem narra. Essa leitura conjunta é uma inferência, e não uma conclusão que qualquer um dos estudos autoriza sozinho. É, no entanto, algo que quem vive o dia a dia da oralidade, consegue perceber empíricamente.


O que os estudos dizem diretamente é que o cérebro em repouso opera com padrões organizados ligados à simulação interna; que imaginar ações ativa parcialmente o sistema motor; que durante a comunicação verbal os cérebros de narrador e ouvinte podem apresentar padrões de ativação acoplados.


Dentro da Contoterapia®, essa convergência oferece um enquadramento possível para algo que já estava no centro da prática. A hipótese de que o cuidado pela narrativa acontece num espaço que envolve tanto quem conta quanto quem escuta, e que a história é o campo onde esse encontro se torna possível. Essa leitura é um posicionamento teórico da Contoterapia®, e não uma conclusão extraída diretamente dos estudos.


Uma pergunta que permanece aberta


Os estudos descritos aqui não foram desenhados para estudar o que acontece durante uma sessão contoterapêutica e não chegam a esse nível de especificidade.


O que oferecem é um conjunto de dados que torna certas perguntas mais precisas. Se o cérebro em repouso está sempre simulando, se o corpo responde parcialmente ao que imagina, e se dois cérebros podem apresentar padrões acoplados durante a comunicação verbal, o que pode acontecer entre o cérebro de quem conta e o de quem escuta quando a presença é real, o vínculo é terapêutico e a história é escolhida com intenção de cuidado?


Essa pergunta está no centro do interesse da Contoterapia®. As bases teóricas que a sustentam estão desenvolvidas no livro Contoterapia: bases teóricas e narrativas do cuidado (Anna Rossetto, 2025).




Referências

BUCKNER, Randy L.; ANDREWS-HANNA, Jessica R.; SCHACTER, Daniel L. The brain's default network: anatomy, function, and relevance to disease. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1124, p. 1-38, 2008.

HASSON, Uri et al. Brain-to-brain coupling: a mechanism for creating and sharing a social world. Trends in Cognitive Sciences, v. 16, n. 2, p. 114-121, 2012.

JEANNEROD, Marc. Neural simulation of action: a unifying mechanism for motor cognition. NeuroImage, v. 14, n. 1, p. S103-S109, 2001.

RAICHLE, Marcus E. et al. A default mode of brain function. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 98, n. 2, p. 676-682, 2001.

STEPHENS, Greg J.; SILBERT, Lauren J.; HASSON, Uri. Speaker-listener neural coupling underlies successful communication. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 107, n. 32, p. 14425-14430, 2010.

 
 
 

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