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Contação de histórias e saúde: o que um estudo em UTI pediátrica revela sobre narrativa e cuidado

  • 11 de mai.
  • 4 min de leitura
Menina de pijama em uma cama de hospital, abraçando urso. Profissional de saúde lê "Histórias do Vento". Ambiente acolhedor.

Da série "Da pesquisa científica à fogueira das histórias"


Imagine uma criança internada numa unidade de terapia intensiva. Ela foi retirada abruptamente da escola, da casa, dos amigos. Está rodeada de equipamentos, procedimentos e pessoas desconhecidas. A dor é real. O medo também. Agora imagine que alguém se senta ao lado dela e começa a contar uma história. O que acontece a seguir é o que um grupo de pesquisadores brasileiros decidiu medir.


Em 2021, Guilherme Brockington e colaboradores publicaram na PNAS — uma das revistas científicas de maior prestígio do mundo — os resultados de uma investigação conduzida com 81 crianças hospitalizadas em unidades de terapia intensiva pediátricas. O desenho experimental foi pensado com cuidado: as crianças foram divididas em dois grupos, um que ouviu histórias e outro que resolveu charadas, também com a presença de um adulto atento, também numa interação agradável. A diferença entre os grupos era uma só, a narrativa.


Antes e depois da intervenção de 30 minutos, os pesquisadores coletaram amostras de saliva para medir dois marcadores biológicos - a ocitocina e o cortisol - e avaliaram a percepção de dor das crianças. Ao final, pediram também que associassem palavras livremente a termos como "enfermeiro", "médico" e "hospital".


O que os dados mostraram


Os resultados foram significativos nas principais medidas observadas. O grupo que ouviu histórias apresentou aumento de ocitocina duas vezes maior que o grupo das charadas, redução de cortisol duas vezes maior, e, queda na percepção de dor igualmente duas vezes superior. Pesquisas sobre contação de histórias e saúde raramente chegam com dados fisiológicos tão diretos.


Para situar esses números: a ocitocina é um hormônio associado ao vínculo social, à confiança e ao acolhimento, com relação documentada à modulação do estresse e à promoção de estados emocionais de conexão. O cortisol é o principal marcador biológico do estresse, e crianças em UTI operam com níveis elevados dele como resposta a um ambiente que o organismo percebe como ameaçador. A redução observada naquele contexto não é trivial porque ocorre num ambiente em que o estresse não é apenas subjetivo, mas fisiologicamente mobilizado.


O dado linguístico, porém, é o que mais chama atenção. As crianças que resolveram charadas descreveram o ambiente hospitalar com palavras de carga negativa - a enfermeira como "a senhora mal-humorada que dá remédio amargo", o hospital como "um lugar ruim onde eu fico quando fico muito doente". As que ouviram histórias responderam de outro modo - a enfermeira como "alguém que ajuda a gente a melhorar e ir pra casa", o hospital como "o lugar onde fico até me sentir melhor". (As respostas originais foram coletadas em português e publicadas no artigo em tradução para o inglês; estas são reconversões aproximadas.) Em 30 minutos de narrativa, houve uma mudança mensurável no modo como essas crianças nomeavam o ambiente e as pessoas ao redor.


O que o contexto do estudo revela sobre contação de histórias e saúde


As histórias usadas não foram selecionadas por conteúdo emocional específico, eram histórias infantis comuns, disponíveis em livros escolares, escolhidas pelas próprias crianças entre oito opções. Os narradores, no entanto, tinham mais de dez anos de experiência contando histórias em ambientes hospitalares. Não eram leitores ocasionais, eram contadores com prática consolidada num contexto de cuidado. Esse detalhe sugere que presença e competência narrativa já fazem parte do mecanismo, mesmo sem personalização do conteúdo.


O estudo também foi conduzido com crianças entre 5 e 11 anos, em situação de estresse agudo, e os dados foram coletados imediatamente antes e depois da intervenção. Os efeitos observados são de curto prazo, num contexto específico. Não é possível assumir que a mesma magnitude se reproduziria em adultos, em sofrimento crônico, ou em ambientes com dinâmicas diferentes. Esses limites, no entanto, tornam a pergunta seguinte mais precisa.


Onde a Contoterapia® entra


Se histórias infantis não personalizadas, contadas por narradores experientes mas sem formação terapêutica específica, em 30 minutos, são capazes de produzir alterações mensuráveis em marcadores biológicos de estresse, vínculo e percepção de dor - o que acontece quando a narrativa é construída com intenção, a partir de uma escuta prévia, com atenção à experiência singular de quem ouve e à imagem simbólica mais adequada?

É essa pergunta que a Contoterapia® leva a sério. Os estudos disponíveis ainda não a investigaram diretamente, e essa lacuna é honesta de nomear.


A ciência consegue medir que a ocitocina sobe quando uma criança escuta uma história. O que ela ainda não alcança é o que acontece quando a história foi escolhida porque ressoou com algo que essa criança carrega, quando a imagem narrativa encontra a experiência de quem ouve. Esse território pertence também a outras formas de saber: clínico, simbólico, relacional.


O estudo de Brockington et al. (2021) é uma das referências que fundamentam esse trabalho. No livro Contoterapia: bases teóricas e narrativas do cuidado (2025), ele aparece inserido num conjunto mais amplo de pesquisas sobre os mecanismos pelos quais a narrativa opera no corpo, na memória e na experiência de quem ouve, e sobre o que diferencia uma história contada com método terapêutico de uma história simplesmente bem contada.



Referência

BROCKINGTON, G. et al. Storytelling increases oxytocin and positive emotions and decreases cortisol and pain in hospitalized children. PNAS, v. 118, n. 22, e2018409118, 2021. DOI: 10.1073/pnas.2018409118



1 comentário

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Nanda Buono
há 5 dias
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Nossa tão bom saber que uma pesquisa sobre histórias, criança e cuidado foi feita no Brasil, que orgulho de ser brasileira e poder ver que construímos algo tão importante.🙏

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