Quando usar histórias na terapia e o que o conto faz que a palavra direta não consegue
- 23 de abr.
- 6 min de leitura

Uma das perguntas que recebo é, quando usar histórias na terapia? Por trás dela, quase sempre, há uma experiência concreta de ter entendido completamente o que se sente e mesmo assim continuar estagnado nisso.
Se isso ressoa com você, então você tocou em algo que a psicanálise reconheceu há mais de um século e que continua desafiando quem trabalha com cuidado, que compreender uma experiência não é o mesmo que se transformar a partir dela. Em 1914, Freud percebeu que nomear a resistência de um paciente podia não produzir nenhuma mudança imediata. Ele chamou de perlaboração - do alemão Durcharbeitung, atravessar trabalhosamente - o processo que de fato transforma. Não o nome dado ao fato, mas o trabalho de atravessar a experiência por dentro. Sem esse atravessamento, a análise corria o risco de se tornar, nas suas próprias palavras, "apenas um exercício intelectual estéril." (Recordar, Repetir e Elaborar, 1914)
Décadas depois, Jacques Lacan aprofundou essa questão por outro caminho. Em seu Seminário 3, em 1956, afirmou que "o inconsciente é, no fundo dele, estruturado, tramado, encadeado, tecido de linguagem." Em sua leitura, a palavra não é apenas um meio de expressão, mas uma via de acesso ao sujeito e ao que nele escapa à consciência imediata. A clínica, nesse horizonte, passa necessariamente pela fala e pela escuta do que se diz sem saber inteiramente que se está dizendo.
Freud e Lacan, cada um a seu modo, ajudam a perceber uma tensão importante, que dar nome à experiência importa, mas nomeá-la não esgota o trabalho de transformação. Em alguns casos, podemos precisar outro modo de atravessar o vivido. E é justamente nesse ponto que a Contoterapia® formula uma de suas perguntas centrais: o que o conto pode oferecer quando a explicação já chegou, mas a experiência ainda não encontrou forma suficiente para se reorganizar por dentro?
Para que isso não fique abstrato, vou apresentar a mesma situação de três maneiras diferentes, pois cada forma de linguagem atua de maneira distinta. A diferença entre elas não aparece apenas no que dizem, mas no modo como tocam, organizam ou deslocam a experiência.
Por exemplo:
Uma mulher que dedicou anos a cuidar das pessoas que ama. O filho, a casa, as relações. Em algum momento, e ela não saberia dizer quando, foi perdendo o fio de si mesma. Nada entrou em colapso. A vida continua funcionando. Mas ela está presente em tudo e ausente de algo que não consegue nomear.
PRIMEIRO MODO — NOMEAÇÃO DIRETA
DIRETO
"Perdi meu espaço. Sinto que me tornei invisível dentro da minha própria vida. Cuido de tudo e de todos, mas ninguém cuida de mim e já nem sei mais o que eu precisaria."
Há alívio real nisso. O que estava difuso ganha contorno. A experiência pode ser dita, reconhecida, partilhada. Nomear diretamente é um gesto importante de consciência, porque só podemos nos endereçar com mais clareza àquilo que começamos a perceber. Mas há um limite possível aqui porque a pessoa recebe o nome, reconhece, concorda e, ainda assim, pode permanecer onde estava. Porque compreender uma experiência não é o mesmo que se mover dentro dela. É justamente esse descompasso que Freud procurou pensar ao formular a perlaboração como o momento em que o trabalho psíquico deixa de ser apenas reconhecimento e passa a produzir transformação efetiva.
SEGUNDO MODO — NOMEAÇÃO VIA METÁFORA
METAFÓRICO
"É como se eu fosse a costureira da vida de todo mundo. Conserto, ajusto, remendo. Mas quando pego minha própria roupa para costurar, alguém sempre chama. Com o tempo, fui deixando minha roupa de lado. Hoje não sei mais onde ela está."
Aqui algo diferente acontece. A linguagem sai do plano mais abstrato e entra na cena. Há imagem, há movimento, há uma história implícita. A pessoa não apenas entende, ela também reconhece. Talvez sinta algo no corpo. Muitas vezes, a metáfora preserva com mais fidelidade a textura do vivido do que a formulação direta, justamente porque não resume a experiência a um conceito, ela a encena em imagem.
David Gordon, em Therapeutic Metaphors (1978), descreve como a metáfora terapêutica pode operar por isomorfismo, isto é, preservando relações estruturais do problema vivido sem nomeá-lo de forma frontal. A pessoa constrói sentido a partir da imagem em relação à própria situação, num processo que ele associa à busca transderivacional (processo da Programação Neurolinguística (PNL) e hipnose onde o indivíduo busca no seu inconsciente e memórias passadas referências para entender um comportamento ou emoção atual). Por isso, em certos contextos, a metáfora pode contornar resistências que a nomeação direta tende a acionar. Em vez de confrontar, ela aproxima por espelhamento indireto.
Mas, quando pensamos num conto, há uma diferença de amplitude. A metáfora terapêutica costuma nascer muito próxima da situação particular da pessoa. Ela traduz nuances subjetivas com delicadeza e precisão, frequentemente a partir de imagens do cotidiano. Nesse sentido, ela tem enorme valor clínico e humano. Ainda assim, em muitos casos, sua força está em iluminar a experiência imediata. O conto pode oferecer outra coisa, não apenas uma imagem de reconhecimento, mas um campo narrativo mais amplo, onde conflito, relação, tempo, perda, escolha e transformação passam a ser vividos simbolicamente.
TERCEIRO MODO — NOMEAÇÃO VIA IMAGEM SIMBÓLICA E CONTO
SIMBÓLICO
Era uma vez uma mulher idosa que vivia à beira de uma floresta mágica com seu filho. Certa noite, enquanto costurava uma camisa para ele, foi repreendida pela nora: "Não faça isso! Você só vai estragar!" O filho, sem hesitar, disse apenas: "Obedeça à minha esposa." Resignada, a mulher deixou a camisa de lado e foi sentar-se no frio da varanda.
—
Pare um momento aqui.
O que aconteceu agora não foi apenas uma nova formulação da mesma experiência. Foi a abertura de um outro registro. A mulher da história não é você, mas tem algo de você, ou de alguém que você conhece, ou de um tempo que você reconhece sem conseguir nomear imediatamente. Não há explicação. Não há diagnóstico. Não há interpretação pronta. E, no entanto, há ressonância.
Aqui está a diferença entre metáfora e símbolo narrativo. A metáfora aproxima uma experiência por meio de uma imagem inteligível e próxima. O símbolo narrativo, especialmente quando carregado por um conto, pode abrir um campo mais amplo de relação com o vivido. Ele não se limita a traduzir uma situação, ele a encena num espaço imaginal em que a pessoa não recebe apenas uma formulação, mas encontra uma forma indireta de se relacionar com aquilo que ainda não conseguiu elaborar por inteiro.
O conto também opera por isomorfismo, é por isso que a mulher da varanda ressoa em quem perdeu seu lugar dentro da própria casa ou da própria vida. A estrutura relacional da história encontra a estrutura da experiência de quem escuta. Mas o conto frequentemente reúne mais do que esse espelhamento. Ele pode condensar camadas afetivas, culturais, imagéticas e, em certos casos, arquetípicas, ampliando o campo de elaboração. Como escrevo em Contoterapia: bases teóricas e narrativas do cuidado, inspirado em Jung, "se as metáforas nos ajudam a nomear o que sentimos e a reorganizar nossa experiência imediata, os arquétipos nos levam um passo além, eles expressam as possibilidades da experiência humana e, mais do que isso, as estruturam. Enquanto a metáfora traduz o vivido em imagens acessíveis, o arquétipo dá forma ao que ainda não foi vivido, operando como molde invisível da psique."
Nesse ponto, o conto não substitui a escuta, nem se impõe como explicação superior. O que ele oferece é outro modo de encontro. Ele cria distância suficiente para que a pessoa possa olhar para a própria experiência sem ser capturada de imediato por ela, e proximidade suficiente para que algo seja sentido. Não entrega uma conclusão. Não fecha um sentido. Abre um espaço em que alguma coisa pode começar a se reorganizar antes mesmo de ser plenamente compreendida.
A história da mulher idosa continua na verdade veio de um conto que já partilhei. O que acontece com ela, as escolhas que faz, o que recusa, o que recupera, é o que torna esse conto tão potente. Você pode ouvi-lo na íntegra aqui, se desejar.
A Contoterapia® trabalha especialmente nesse terceiro registro. Ela pode encontrar especial potência onde a explicação direta e o espelhamento metafórico, embora importantes, ainda não favoreceram deslocamento suficiente.
Isso tem implicações diretas sobre quando e para quem a Contoterapia® é indicada. Ela encontra especial potência em momentos de transição, perda de sentido, impasses emocionais persistentes ou situações em que a pessoa já compreendeu muita coisa sobre si, mas ainda não conseguiu transformar essa compreensão em experiência integrada.
Mas é importante dizer que na Contoterapia®, esses três registros não se excluem. Eles fazem parte de um mesmo movimento. A escuta cuidadosa ajuda a nomear o que está vivo na experiência da pessoa. As metáforas que ela traz - suas imagens, suas comparações, as palavras que escolhe para descrever o que sente - orientam a escuta e também a busca ou a criação do conto. E o conto, por sua vez, pode abrir o espaço em que aquilo que já foi nomeado e parcialmente reconhecido encontre uma forma mais ampla de elaboração. É esse movimento, entre escuta, palavra, imagem e narrativa que a Contoterapia® encontro suas singularidade, não para substituir uma compreensão mas para oferecer à experiência um corpo simbólico onde ela possa, enfim, continuar seu trabalho.
FREUD, Sigmund. Recordar, Repetir e Elaborar. 1914. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
GORDON, David. Therapeutic Metaphors: Helping Others Through the Looking Glass. Cupertino: Meta Publications, 1978.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 3: As Psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. (Aula de 01/02/1956, p. 139)
ROSSETTO, Anna. Contoterapia: bases teóricas e narrativas do cuidado. 2025.




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