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Realidade e imaginação são a mesma coisa para o cérebro? O que a pesquisa revela sobre histórias e cuidado

  • 16 de abr.
  • 5 min de leitura
Imagem realista em composição dupla. À esquerda, um pesquisador observa exames cerebrais com áreas iluminadas em laranja, sugerindo atividade neural. Ao centro, um cérebro luminoso conecta os dois lados da cena. À direita, um contador de histórias narra ao redor de uma fogueira para uma criança, sob céu noturno, com lua cheia e um castelo ao fundo. A imagem sugere a relação entre neurociência, imaginação e narrativa.
Entre a experiência vivida e a experiência imaginada

Você já deve ter ouvido que realidade e imaginação usam as mesmas partes do cérebro. Essa afirmação circula há anos em conversas sobre neurociência, criatividade e bem-estar, quase sempre sem o que vem depois dela. O que os estudos encontraram é mais preciso do que a frase sugere, e é essa precisão que torna o achado interessante para quem trabalha com histórias como cuidado ou pensa em recebê-las.


Este texto percorre dois estudos de neuroimagem publicados em 2001, o que eles encontraram sobre como o cérebro processa realidade e imaginação, e a pergunta que esses achados abrem para a prática narrativa.


Realidade e imaginação no cérebro: o que os estudos encontraram


Em 2001, Stephen Kosslyn, Giorgio Ganis e William Thompson publicaram uma revisão no Nature Reviews Neuroscience reunindo décadas de pesquisa sobre imaginação visual. Quando uma pessoa fecha os olhos e imagina um objeto, o córtex visual primário, a primeira região cortical a receber informação dos olhos, se ativa do mesmo modo que durante a percepção real. Para confirmar que essa ativação tem papel funcional, os pesquisadores perturbaram a região com estimulação magnética externa: a capacidade de imaginar piorou na mesma proporção que a capacidade de ver, indicando que os dois processos compartilham de fato o mesmo substrato neural.


No mesmo ano, Marc Jeannerod publicou um artigo no NeuroImage sobre simulação neural de ação, reunindo evidências de fMRI, estimulação magnética e registros fisiológicos. Imaginar movimentos ativa o córtex motor com cerca de 30% da intensidade da execução real. O coração acelera, a respiração muda, o corpo começa a responder a uma ação que ainda existe apenas como imagem. O resultado aponta para o mesmo princípio encontrado por Kosslyn: realidade e imaginação recrutam os mesmos circuitos, com magnitudes distintas.


A diferença de intensidade não é uma limitação


O aspecto que quase nunca aparece quando essa descoberta é popularizada é justamente o que a torna mais relevante. A sobreposição entre realidade e imaginação é real, mas o cérebro dispõe de mecanismos sofisticados para distingui-las. O hipocampo e o córtex pré-frontal avaliam continuamente nitidez, riqueza de detalhes e origem do estímulo para separar o que foi vivido do que foi apenas imaginado. A intensidade dos sinais na imaginação costuma ser menor do que na percepção real, e é essa diferença que torna os dois processos funcionalmente distintos.


Essa intensidade menor é também o que torna a imaginação terapeuticamente relevante. Algumas experiências não suportam ser abordadas de frente, uma dor recente demais, uma memória que ainda não encontrou forma, um medo que paralisa antes de ser nomeado.


Quando a experiência direta aciona defesas antes de qualquer abertura, a imaginação oferece um caminho com a mesma capacidade de ativar sistemas emocionais e corporais, mas com uma intensidade que não esmaga. A história que convoca essa imaginação chega ao mesmo território por uma entrada diferente.


A pergunta que os estudos abrem


É importante nomear um limite aqui. Nenhum desses experimentos foi feito com histórias. Kosslyn estudou pessoas imaginando objetos com os olhos fechados; Jeannerod estudou pessoas imaginando movimentos. Ambos trabalharam em contextos controlados de laboratório, com tarefas específicas e mensuráveis. A ponte entre esses achados e a prática narrativa é uma inferência legítima, e precisa ser apresentada como tal.


O que essa inferência abre é a seguinte pergunta: se o corpo já responde a uma imagem mental qualquer, o que acontece quando essa imagem é convocada por uma história contada por alguém presente, que escutou você antes de construir aquela narrativa, que escolheu cada imagem com intenção? Essa pergunta ainda não tem resposta experimental direta. Estudos sobre narrativa e cérebro, como os que documentam acoplamento neural entre narrador e ouvinte ou o efeito fisiológico de escutar histórias em contextos de cuidado, oferecem evidências complementares, mas o território específico da escuta terapêutica de histórias em adultos segue pouco investigado. O que existe, com valor real, é o encontro entre dois tipos de conhecimento que chegaram ao mesmo lugar por caminhos diferentes.


O que a tradição já sabia


A pesquisa chegou a esse território recentemente. A tradição oral o habita há milênios, e o fazia sem nenhum vocabulário neurocientífico. Contadores de histórias ao redor de fogueiras já sabiam que uma narrativa bem contada move o corpo, que imagens simbólicas acessam lugares que a palavra direta não alcança, que o ritmo, a pausa e a voz de quem conta são parte do efeito.


Um estudo antropológico de Wiessner (2014) com os Ju/'hoansi Bushmen do deserto do Kalahari documentou que, durante o dia, apenas 6% das conversas envolviam narrativas, com o foco concentrado em questões práticas. À noite, ao redor do fogo, esse número subia para 81%. O ambiente criava um campo para que as histórias fizessem o que precisavam, consolidar laços, transmitir sabedoria, reduzir a ansiedade diante do desconhecido. Os dados de neuroimagem ajudam a nomear parte do que estava acontecendo nesses encontros, mas o fenômeno antecede qualquer instrumento de medição.


O que isso muda na prática


Para quem trabalha com histórias como cuidado, conhecer o que a pesquisa encontrou sobre realidade e imaginação aprofunda a compreensão do que está em jogo quando uma história é contada com intenção. O corpo de quem ouve já está participando antes de qualquer decisão consciente: o córtex visual processa imagens que ainda não existem fora da mente, o sistema motor se prepara para movimentos que ninguém vai executar. A história construída com escuta entra nesse sistema por uma porta que a linguagem direta muitas vezes não encontra.


Para quem pensa em receber atendimento por narrativa, vale saber que a história age antes de qualquer elaboração consciente. O corpo já está respondendo enquanto a mente ainda está avaliando. A ressonância que uma imagem simbólica bem escolhida produz acontece nesse intervalo, e é a partir dele que o cuidado por narrativa trabalha


Tradição, ciência e experiência


A Contoterapia® foi construída sobre um tripé que nomeia essa relação com honestidade: tradição, ciência e experiência clínica acumulada. A tradição conecta a prática ao saber ancestral das histórias como forma de cuidado, transmitido oralmente muito antes de qualquer sistematização terapêutica. A ciência oferece um idioma para nomear parte do que acontece quando uma narrativa entra no corpo e na mente. A experiência clínica revela, no encontro real com pessoas reais, o que os estudos ainda não conseguem medir.


Os três funcionam juntos sem que nenhum precise exceder o que é. A pesquisa ilumina mecanismos que a tradição já operava intuitivamente. A fronteira entre realidade e imaginação no cérebro é mais porosa do que parece, e é nessa porosidade que o cuidado por narrativa encontra seu lugar.



Referências

Kosslyn, S. M., Ganis, G., & Thompson, W. L. (2001). Neural foundations of imagery. Nature Reviews Neuroscience, 2(9), 635–642.

Jeannerod, M. (2001). Neural simulation of action: a unifying mechanism for motor cognition. NeuroImage, 14, S103–S109.

Wiessner, P. W. (2014). Embers of society: Firelight talk among the Ju/'hoansi Bushmen. Proceedings of the National Academy of Sciences, 111(39), 14027–14035.

Rossetto, A. (2025). Contoterapia: bases teóricas e narrativas do cuidado. Clube de Autores.

 
 
 

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