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Contoterapia começa pela escuta não pelo conto. Você sabia disso?

  • há 4 dias
  • 5 min de leitura
Livro aberto e óculos sobre mesa de madeira entre duas poltronas bege. Xícara ao lado. Luz suave entra pelas cortinas ao fundo.

A palavra "escuta" circula com facilidade. Em formações, em perfis de redes sociais, em descrições de práticas que usam histórias como recurso. Mas o que ela designa, concretamente, no encontro entre um profissional e alguém que chegou pedindo ajuda?


Essa pergunta tem uma resposta precisa na Contoterapia®, e a resposta muda tudo sobre como o trabalho é conduzido. A contoterapia começa pela escuta. O conto, o símbolo, o repertório que o profissional acumulou ao longo da formação entram depois. O ponto de partida é sempre a pessoa que está diante de você.


O que costuma passar por escuta em práticas com histórias


Existe uma abordagem bastante difundida de trabalhar com contos que parte de um texto já escolhido, com frequência um dos contos presentes em Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, e o oferece ao paciente ou ao grupo como espelho simbólico. A pergunta que organiza esse trabalho é analítica: o que esse conto revela sobre a psique, sobre o arquétipo, sobre o padrão que está em jogo?


Esse trabalho tem seu valor. Repertório simbólico importa. No entanto, vale nomear o que ele é, uma leitura arquetípica, uma identificação entre uma experiência vivida e um padrão já descrito dentro de uma chave interpretativa prévia. A escuta, no sentido em que a Contoterapia® a fundamenta, começa pela singularidade de quem está à sua frente. Isso exige outra postura e outro ponto de partida.


Por que a contoterapia começa pela escuta, não pelo conto


A Contoterapia® parte da premissa de que nos relacionamos com as histórias, que entramos em contato com elas assim como nos relacionamos com outros seres. O conto é uma presença, algo com o qual o profissional e o paciente se encontram juntos.


Essa relação com o conto só se torna terapêutica quando nasce de uma relação com quem está diante de você. Quando a escuta precede o símbolo.


Quando o profissional escuta primeiro o que a pessoa vive, o que ainda não nomeou, o que o corpo carrega antes que a palavra chegue, o conto que surge a partir daí é uma oferenda construída a partir do que foi escutado. Uma imagem tecida com o que a pessoa trouxe, não a partir de um repertório prévio sobreposto a ela.


A diferença entre usar uma história sobre alguém e oferecer uma história para alguém passa inteiramente por aí.


O que a escuta terapêutica exige na prática


Na Contoterapia®, a escuta é descrita como "um tipo de presença que sustenta ao invés de resolver" (Rossetto, 2025, p. 30). Essa formulação tem peso.


Escutar para sustentar significa resistir ao impulso de oferecer caminhos, conselhos ou interpretações antes que algo amadureça em quem está sendo escutado. Significa habitar o intervalo entre uma pergunta e sua resposta sem preenchê-lo. Quem chega pedindo cuidado frequentemente precisa ser visto antes de ser orientado.


Esse fundamento tem raízes na tradição humanista. Carl Rogers sustentava que a transformação acontece quando o ser humano encontra um ambiente de empatia, autenticidade e aceitação incondicional. Na Contoterapia®, esse ambiente é condição para que o conto cumpra seu papel. Ele só age dentro do campo relacional no qual é oferecido e recebido.


Martin Buber distinguiu dois modos de relação, o EU-TU e o EU-ISSO. No encontro EU-TU há presença real e reconhecimento do outro como ser singular. No EU-ISSO o outro é reduzido a padrão, a caso, a objeto a ser decifrado. "No princípio é a relação", escreveu Buber (2009, p. 18). Na prática contoterapêutica, essa distinção define se a escuta acontece como presença ou como procedimento.


Emmanuel Levinas acrescenta uma dimensão ética a esse quadro. Para ele, o encontro com o Outro exige que o profissional suspenda suas categorias prévias, porque o Outro é absolutamente singular. A escuta genuína só acontece quando nenhuma chave interpretativa precede o encontro. Quando um contoterapeuta chega ao encontro com uma interpretação já formulada, corre o risco de substituir a experiência de quem está diante de si pelo mapa que ele mesmo trouxe.


A Comunicação Não Violenta como base da escuta contoterapêutica


Um dos fundamentos mais importantes e talvez menos visíveis da Contoterapia® é a Comunicação Não Violenta, desenvolvida por Marshall Rosenberg. Na CNV, escuta é uma qualidade de presença voltada ao bem-estar de todos os envolvidos, fundada na consciência de necessidades, na empatia e na reconexão humana.


Escutar é estar presente com o que a pessoa sente, com o que ainda não consegue dizer, com o que o corpo já carrega antes da palavra.


A pergunta que organiza a escuta contoterapêutica é "o que essa pessoa está vivendo, agora, neste encontro?" O símbolo vem depois, construído a partir dessa presença. Exatamente por isso, quando vem, tem precisão.


Escuta analítica exige formação analítica


Há um problema mais concreto que merece ser nomeado.


Quando se fala em escuta simbólica no sentido junguiano, em ler arquétipos, trabalhar com o inconsciente coletivo, interpretar imagens internas, pressupõe-se um arcabouço formativo muito específico. A psicologia analítica exige conhecimento de transferência e contratransferência, manejo de conteúdo inconsciente, supervisão clínica continuada, delimitação do setting. É uma competência construída ao longo de anos dentro de uma formação especializada, e o vocabulário que ela gerou pertence a esse contexto.


A Contoterapia® é praticada por profissionais de origens diversas: psicólogos, pedagogos, educadores, profissionais da saúde, contadores de histórias. Essa pluralidade é uma característica do método. A formação na metodologia, com bases humanistas e CNV, é o que delimita e orienta o trabalho do contoterapeuta.


Quando práticas com histórias adotam o vocabulário da escuta analítica sem a formação que o sustenta, as pessoas que chegam a essas práticas, muitas vezes com experiências que ainda não encontraram forma, podem receber algo diferente do que acreditam estar recebendo. Usar uma palavra sem a estrutura que a sustenta desoriente quem busca cuidado.


Escuta como ofício


A Contoterapia® é descrita em suas bases teóricas como um ofício de escuta, presença e criação (Rossetto, 2025, p. 44). Escuta aparece antes de criação, e essa ordem não é casual. O conto terapêutico, seja escolhido do repertório mítico e das tradições orais, seja criado no encontro, nasce sempre depois de uma escuta que o precedeu.


Esse ofício não se aprende acumulando contos. Aprende-se cultivando a qualidade de presença que torna o conto possível como gesto de cuidado.


A pergunta que o método coloca é concreta: quem está sendo realmente visto no encontro? O ser humano com sua experiência singular, ou o arquétipo que essa experiência supostamente representa? Quando a escuta é o fundamento do trabalho, essa pergunta tem resposta.


Referência:

ROSSETTO, Anna. Contoterapia: bases teóricas e narrativas do cuidado. Toledo: Contoterapia, 2025. ISBN 978-65-988327-1-1.

BUBER, Martin. Eu e tu. Tradução, introdução e notas de Newton Aquiles Von Zuben. 10. ed. rev. 3. reimpr. São Paulo: Centauro, 2009.

 
 
 

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Contoterapia® é uma abordagem narrativa autoral criada por Anna Rossetto no Brasil, voltada ao cuidado simbólico por meio da escuta e da criação de histórias.

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