A direção que muda tudo: por que a terapia com histórias parte da vida, não do conto
- 24 de mar.
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Existe uma pergunta que aparece com frequência quando alguém se depara com a Contoterapia® pela primeira vez, especialmente quem já teve contato com abordagens que também usam histórias no trabalho terapêutico: é como aquilo que fazem com os contos de fadas? Com os mitos gregos?
E a diferença, para quem pratica ou busca uma terapia com histórias, não é pequena.
A Contoterapia® é uma abordagem de cuidado simbólico criada pela contadora de histórias e terapeuta Anna Rossetto, que articula escuta empática, linguagem simbólica e criação narrativa. Ao longo de dez anos de desenvolvimento e prática, foi sistematizada como metodologia e publicada no livro Contoterapia: bases teóricas e narrativas do cuidado(2025). Este artigo parte dessa obra e de conversas com contoterapeutas em atuação para explorar um dos pontos que mais geram confusão sobre a abordagem: a direção do processo.
O que parece igual e não é
Há um modo consolidado de trabalhar com histórias em contexto terapêutico, especialmente dentro da tradição junguiana, que ficou mais conhecido no Brasil pela popularização de livros como Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés. Nessa abordagem, parte-se de um conto, de um mito ou de uma narrativa arquetípica e busca-se dentro dele a experiência da pessoa. A história funciona como mapa. O terapeuta ajuda o paciente a localizar-se nesse mapa: aqui está a ferida, ali está o arquétipo, este personagem representa aquele aspecto de você.
É um trabalho legítimo e de longa tradição. Mas a direção do movimento é específica, do conto para a vida. Primeiro a história, depois o encaixe.
A Contoterapia® opera em sentido contrário.
O movimento invertido na terapia com histórias
Na Contoterapia®, o processo começa pela escuta da experiência concreta de quem está em atendimento. O contoterapeuta não parte de uma história já pronta para aplicar à situação da pessoa. Parte da situação da pessoa para criar - ou selecionar e adaptar - uma história que a acolha.
Isso tem uma consequência direta na prática, o conto terapêutico não é um espelho genérico. É uma resposta poética a um momento específico, construída com os símbolos, imagens e desafios que emergiram da escuta. Como o livro da Contoterapia® define, cada história escolhida ou criada "nasce como resposta poética a um momento específico de desafio ou travessia".
Danielle Varanda é psicóloga formada pela Universidade do Minho, contoterapeuta, e trabalha com atendimentos terapêuticos em Portugal. Ela passou pela formação em Contoterapia® e descreve com precisão o que percebeu na prática: "a abordagem junguiana pega o conto e tenta encaixar os fatos da sua vida naquele conto, e a Contoterapia® é invertida. É buscar no simbólico os eventos da sua vida."
A inversão não é cosmética. Ela define quem conduz o processo.
O que a direção tem a ver com autonomia
Quando se parte de um conto já existente para interpretar a vida de alguém, há inevitavelmente uma estrutura prévia que enquadra a experiência. O conto tem seus personagens, seus conflitos, sua lógica interna. A leitura terapêutica seleciona o que cabe dentro dessa estrutura e organiza a experiência do paciente a partir dela.
A Contoterapia® escolhe não fazer isso. O livro é explícito, durante a prática, não se conduzem interpretações ou leituras simbólicas guiadas. Os conhecimentos simbólicos - junguianos, mitológicos, filosóficos - fazem parte da formação do contoterapeuta, mas não para serem aplicados ao paciente. Servem para ampliar a sensibilidade de quem escuta, não para fornecer um mapa fechado a ser seguido.
A razão é ética, além de metodológica, pois ao partir da experiência singular da pessoa, a Contoterapia® preserva o que chama de "autonomia simbólica". O sentido que emerge da história não é o sentido que o terapeuta identificou e entregou. É o sentido que a própria pessoa encontra no contato com a narrativa criada para ela.
Da escuta ao símbolo: o que acontece no meio
Para que esse movimento seja possível - partir da vida e chegar a uma história - é necessário um tipo específico de escuta. Não uma escuta que identifica o problema e o traduz racionalmente. Uma escuta que presta atenção ao que pulsa por trás do que está sendo dito, as imagens espontâneas que a pessoa usa para descrever sua situação, as emoções ainda sem nome, os símbolos que emergem antes de qualquer interpretação.
Na formação em Contoterapia®, um dos primeiros módulos trabalhados é a Comunicação Não Violenta (CNV), abordagem desenvolvida pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg que propõe um modo de escutar e de se expressar a partir de necessidades e sentimentos reais, sem julgamento. Na Contoterapia®, a CNV não é apenas uma técnica de comunicação, ela é a base que torna possível a escuta simbólica que o trabalho exige.
Danielle Varanda fala sobre o que essa escuta significa na criação do conto: "o conto não é pra gente, não é pra quem escreve. O conto é pra quem vai receber. Então não adianta eu teimar com uma imagem que não funcione pro cliente. É muito escuta, muito escuta. Escutar até além do que está sendo dito."
Quando alguém menciona, por exemplo, estar preso em "uma floresta escura", o contoterapeuta não interpreta a floresta à luz de um referencial teórico. Acolhe a imagem como ela chegou e a utiliza como ponto de partida narrativo. A floresta entra na história porque ela veio da pessoa, não porque o terapeuta a reconheceu num mapa simbólico.
Esse processo transforma as informações da escuta em imagens, símbolos e metáforas que espelham os desafios do paciente de forma sensível e indireta. O conto funciona, nas palavras do livro, como "ponte poética entre o vivido e o possível".
Por que isso importa na prática
A diferença de direção tem implicações concretas para quem recebe o conto.
A história ressoa de um modo que narrativas genéricas não conseguem alcançar, porque ela foi feita a partir da experiência específica de quem a recebe. Não é uma fábula com moral. Não é um mito que precisa ser decifrado. É uma história que contém, de forma simbólica e indireta, o que estava vivo naquele momento.
O conto terapêutico também não chega com uma resolução, e isso é deliberado. Impor um final seria, nas palavras de Danielle Varanda, "tirar a agência" da pessoa. O trabalho do contoterapeuta é colocar as imagens em movimento, não dizer o que fazer com elas.
E porque parte da escuta e não de uma teoria aplicada, o conto pode acolher o que ainda não tem nome. A experiência simbólica não precisa ser racionalizada para funcionar. A história age antes da explicação.
O que a Contoterapia® não é
Vale ser claro, porque a confusão é frequente.
A Contoterapia® não é a prática de ler contos em grupo e discutir o que eles significam. Não é a aplicação da simbologia junguiana à biografia de alguém. Não é terapia narrativa no sentido de reconstruir a história que a pessoa conta sobre si mesma.
Essas abordagens têm valor próprio e operam com rigor dentro de seus quadros teóricos. A distinção não é hierarquia, é direção. Na Terapia Narrativa, desenvolvida por Michael White e David Epston na década de 1980, o trabalho se concentra em desconstruir narrativas dominantes e reescrever histórias mais alinhadas com os valores do paciente, a partir do campo social e discursivo. Na Psicologia Analítica, os símbolos e arquétipos funcionam como organizadores da experiência, com o terapeuta assumindo papel ativo na exploração do que evocam. A Contoterapia® faz outra escolha. Ela confia no campo simbólico criado pela narrativa, sem dirigi-lo.
O que diferencia a Contoterapia® é que a história não interpreta, ela acolhe. E para que isso aconteça, ela precisa ter nascido da escuta de quem vai recebê-la.
Referência
ROSSETTO, Anna. Contoterapia: bases teóricas e narrativas do cuidado. Toledo: Contoterapia, 2025. ISBN 978-65-988327-1-1.




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